Esta fotografia é uma metáfora visual. Simboliza o núcleo de Vida, entendendo-a como a Natureza, as Gentes e as suas Culturas, rodeados pela adversidade.

É um sinal e um clamor em memória dos povos da Peneda e do Gerês.



domingo, 15 de agosto de 2010

Faliu o sistema!

Estranho muito o silêncio de quem defende a todo o custo os processos naturais e as wilderness areas. Também não estranharei se lançarem agora mais uma ofensiva radical com o propósito de verem aprovado o Plano de Ordenamento no sentido que lhes convém - culpar as gentes de cá e criar mais restrições.
A culpa por este desatre é exclusivamente do Estado, mal aconselhado por gente ambientalmente perturbada.

Este ano, como nos anos anteriores, quando arde algo com elevado valor natural, o que se faz saber pelos OCS é que foi apenas um sitio com um nome estranho, lá num qualquer concelho do interior. Se bem ouviram, ontem, as notícias, diziam que ardia no Cabril, concelho de Ponte da Barca. Creio que sabem bem o que é este Cabril, não é verdade?

Em Março de 2009, na carta aberta dirigida à figura extinta de Director do PNPG (nós queriamos ainda usar esta figura porque nos cria a ilusão de alguma proximidade do poder central junto de nós), repetiamos aquilo que toda a gente de cá sabe:
"Por fim, não podemos deixar de fazer uma referência clara sobre o incêndio recentemente ocorrido na Mata da Albergaria. Os resultados verificados demonstram a falta de uma verdadeira estratégia de protecção, integrando a vigilância, a prevenção e um plano de combate. Nas áreas protegidas, em nossa modesta opinião, a principal acção deve ser a da prevenção.
É do senso comum perceber que a acumulação de lenhas e de matos potenciam o perigo de incêndio em qualquer parte. A falta de gestão de combustível, associada à falta de vigilância e à ausência de acessos deixa totalmente ao abandono e ao perigo valores naturais elevados com acontece por todo o PNPG.
Como muito preocupante é a falta de conhecimento e de sensibilidade dos responsáveis pelo combate aos incêndios, aliado à falta de coordenação com os gestores do território para perceber os valores em causa. Foram elementos desta Comissão que chamaram a atenção para a importância do sítio e do incêndio.
A informação prestada aos OCS sobre o primeiro incêndio ocorrido nos Prados Caveiros, no dia 21 de Março, omitindo tratar-se de PNPG e a desmobilização dos meios sem que o incêndio estivesse extinto, merecem o nosso maior repúdio e censura, além de merecer uma averiguação sobre o sucedido. Há demasiadas coincidências que revelam desleixo e incompetência, já para não se falar da distracção criada com a virtual detenção de um suspeito, criando uma falsa ideia na opinião pública sobre a origem do fogo e afectando a imagem das populações locais.
Também o Estado deve ser consequente e assumir as suas responsabilidades nesta catástrofe. Não pode querer minimizar o problema através dos serviços de protecção civil, dizendo que apenas arderam matos e, pasme-se, que agora, em consequência dos matos ardidos, até há uma faixa de protecção da Mata da Albergaria para os próximos 5 anos. Para quem estiver distraído, recordamos que aqueles matos são os matos do projecto Pan Parks e que a tal faixa de protecção também poderá ser invocada por um qualquer particular, quando tiver responsabilidades nos incêndios florestais."

Aproveito para aqui deixar outra nota muito importante. Aqueles matos ardidos na Serra Amarela, na Serra da Peneda e na Serra do Gerês, como agora voltam a ser classificados sem valor natural relevante pelo Henrique Pereira dos Santos, estão assinalados nas cartas de zonamento da proposta de revisão do Plano de Ordenamento do PNPG com elevado valor natural. Nalguns casos, também nós sabemos que de facto não têm nenhum valor natural, mas estão assim classificados pelo ICNB com um único propósito de prejudicar a actividade das gentes que cá vivem. Revela-se mais uma vez a política dos dois pesos e das duas medidas.

Todo o sistema de preservação e de protecção desta área protegida (PNPG) está falido! Os incêndios da Serra Amarela e o da Calcedónia começaram muito longe de onde se extinguiram sem que a industria dos incêndios mostrasse eficácia na sua acção. Vamos pedir à Comissão Parlamentar de Agricultura que cá vem na próxima semana que faça um balanço rigoroso e apure quem ganhou e quem perdeu com estes incêndios e, sendo feito, irá revelar à opinião pública a preversidade das lógicas de funcionamento desta máquinas infernais. É 3º mundista o sistema de decisão assente num circo que é montado para os directos dos OCS. É triste que os Governadores Cívis tenham de usar as televisões usando linguagem alarmista para chamar a atenção de quem decide a nível central. Esta semana de circo nas nossas montanhas, leva-me a sugerir a adopção de novas estratégias e de lógicas de funcionamento ousadas e participativas - que a indústria dos incêndios obtenha rendimentos económicos pela prevenção e pela falta de actuação no combate.
Se eles não o considerarem ofensivo, vou oferecer um prémio monetário aos Bombeiros da minha terra, escalonando-o com o acordo deles, de modo que acima de uma determinada área ardida não haja prémio e a ausência de fogos corresponda ao prémio maior. Com isto, sendo nós um país de gente crente, algumas pessoas até vão rezar para que não haja incêndios na terra, isto para não falar das preocupações e das sinergias libertadas na pervenção e na vigilância.

Agora, uma palavra de ânimo para as nossas gentes (agricultores, pastores, apicultores e comerciantes). Estas cinzas deverão unir-nos em torno da defesa dos nossos direitos e do valioso património natural, paisagistico e cultural que os nossos antepassados nos legaram. O Estado volta a revelar-se incompetente na gestão do que é dele e do que é nosso. De certeza que faremos muito melhor do que eles, basta seguir as nossas tradições, feitas ao longo de séculos numa inter-acção permanente com a natureza. Foi a própria natureza que nos ensinou sobre a necessidade de limpar as montanhas para que os incêndios demoniacos do Verão não arruinem a economia familiar de quem delas depende. A minha avó dizia-me que as boas queimadas do Outono consumiam o pasto ao diabo do fogo do Verão!Vamos ter um ano muito difícil, sem pastagens para os animais, sem flores para as abelhas e com elevados cortes nas receitas da actividade turística sazonal (no Gerês, em regra, metade da receita anual do turísmo é obtida em Agosto).

Por fim, esperamos que esta falência do sistema traga as respectivas responsabilidades. Não aceitamos que se encubram responsabilidaes e desculpem incompetências de quem teve o dever de zelar por este património:
- O ICNB é um órgão maligno no sistema que urge amputar;
- A estrutura de Protecção Cívil responsável pelo combate aos incêndios não sabe reconhecer matos e habitats com valores naturais, nem parece saber a importância do rescaldo, da vigilância pós-combate (para atacar rápidamente os re-acendimentos provocados por pinhas e canhotas a rolar, e até pelo próprio diabo que também por cá andam nestas alturas);
- O PNPG deve voltar a ter autonomia e vida própria, mas agora dirigido por gente de cá, devolvendo a paz às pessoas e à natureza, com os necessários temperos da biologia e da antropologia, respeitando a nossa auto-determinação;
- O funcionamento desta estrutura do Estado só será aceite por nós se for séria e tiver garantido o seu funcionamento com dotações orçamentais necessárias e suficientes para as suas atribuições (mas que sorte teve o ICNB e o Governo em libertarem as verbas necessárias para a vigilância e para o trabalho normal e extraordinário dos Vigilantes do PNPG, justamente dois dias antes desta catástrofe. Seria bonito misturar nestas chamas de fogo os ataques políticos e sindicais!);
- Com o esforço de todos, vamos recuperar de uma vez o Vale do Gerês, atacando as mimosas, criando faixas descontínuas do coberto vegetal, zonas de folhosas, eventualmente zonas de queimadas, como toda a gente sabe que deve ser feito(!);
- Concluo com um desafio: entreguem-nos a responsabilidade pela protecção deste património natural, com metade do valor dos prejuizos materiais e com metade das verbas gastas com os salários, vencimentos, subsídios, ajudas de custo e outros alcavalas de todas as pessoas que cá vieram por causa dos incêndios (incluindo as deslocações dos Secretários de Estado e as dos jornalistas) e nós garantimos efectivamente que o PNPG se preserva e desenvolve livre de fogos florestais no próximo ciclo.
Agradeço a oportunidade que me dão para mostrar um pouco do que vai nas nossas almas (sim, aqui ainda vive gente!).
Cumprimentos
José Carlos Pires
Campo do Gerês, 15 de Agosto de 2010
PS: Felizmente para mim, à minha volta, ainda consigo ver tudo verde, pois os incêndios andaram do lado de lá das encostas.

4 comentários:

  1. Este texto foi feito para um blogue nacional de discussão das questões ambientais e na réplica ao Henrique Pereira dos Santos, escrevi:

    Não, não é uma mentira. Foi assim que a ela se referiu a figura do extinto Director do PNPG, quando ardia Vilarinho das Furnas. Revejam videos e re-escutem entrevistas e oiçam com atenção como ele classifica aqueles matos.
    Não foi minha intenção imputar exclusivamente esta afirmação ao Henrique, pois como bem sublinhou - agora voltam a ser classificados, estava implicito que já alguém lhe tinha posto aquele rótulo e esse alguém já não me parece que tenha condições para continuar a "governar" esta coutada.

    Cumprimentos
    José Carlos Pires

    ResponderExcluir
  2. Vê-se nas suas palavras que lhe doi a alma ao ver o "nosso" Parque consumido pelas chamas.
    Não sou habitante do Gerês, nem redondezas, mas desde há muitos anos, que visito essas serras para carregar baterias e foi com tristeza que constatei que de 2009 para 2010 nada foi feito.
    As montanhas de lenha seca, pinhas, caruma e até árvores caídas, lá continuavam. O verde em algumas zonas, como acontece junto do parque da travanca,não existe e dá lugar a amontoados de lenha seca...´
    Minto!! alguma coisa foi feita...as obras no mezio continuam a avançar! Pena é, que quando estiverem concluídas pouco ou nada haja para ver...

    ResponderExcluir
  3. O ICNB está morto. A reestruturação operada pelo secretário de Estado Humberto Rosa, a pedido de alguns dirigentes no interior do INCB e de forças económicas externas fez com que a capacidade de operacionalidade deste instituto que sempre esteve falido, ficasse ainda mais reduzida.
    Há viaturas encostadas por falta de dinheiro para manutenção, para inspecções ou reparações. Há instruções (umas mais a descoberto que outras) para os técnicos emitirem pareceres no gabinete, sem irem ao terreno, para não gastar combustível, há gente a querer sair do ICNB apenas para garantir alguma sanidade mental tal é a quantidade de disparates e falta de conhecimento de causa que estão patentes em orientações superiores, quer de alguns directores, como e sobretudo, da presidência, sobretudo de um homem chamado Carlos Figueiredo que apenas vê cifrões e está no ICNB não para gerir mas apenas e só para CORTAR A DIREITO.
    Basta apenas dizer que esta reestruturação retirou às Áreas Protegidas a capacidade de intervenção. Ao colocar um director para 5, 6 ou 7 Áreas Protegidas, retira-se a capacidade de intervenção local, de reacção a qualquer necessidade, de iniciativa do corpo de pessoal (porque ficam sem apoio superior de proximidade) e, sobretudo, de decisão. Há protocolos assinados que não entram em acção, há acções de propaganda mas não há resultado consequente, há estatística, quadros, tabelas. Papel e mais papel. Ocupam-se os funcionários com memorandos, quadros, tabelas, pareceres etc. Tudo para evitar a acção dos mesmos sobre o terreno com estudos, trabalhos de campo, acções concretas. Tudo para reduzir despesa. Assim morre em Portugal a Conservação da Natureza. Primeiro criaram-se as Áreas Protegidas, depois vieram mais umas centenas de milhar de hectares de Áreas Classificadas com a Rede Natura 2000 e de seguida, transforma-se o ICN em ICNBosta, espartilhando-o em 5 departamentos como se de 5 pequenos ICN's se tratasse.
    Em Lisboa já nem sequer há um departamento de SIG capaz de funcionar e fornecer elementos cartográficos adequados para análise de projectos e emissão de pareceres. Os Vigilantes da Natureza não têm fardamento novo há mais de 5 anos, os funcionários correm o risco de ir abastecer uma viatura e depois ficar com o carro atestado nas bombas porque o FROTA não tem plafond por falta de pagamento.
    É ridículo o que vive no ICNB e quem lá trabalha e tem mesmo vontade de fazer alguma coisa (também há aqueles para quem isto nunca esteve tão bom), sente-se frustrado, revoltado por ver uma casa que já foi como uma família, em que todos remavam para o mesmo lado, a morrer às mãos de directrizes políticas que querem apenas acabar com a capacidade do ICNB intervir de forma séria no terreno, de estar junto das populações e de fazer o que lhe compete por definição da sua missão. Este procedimento não é em vão. O objectivo é entregar às mãos de privados o que compete a um estado de direito: a salvaguarda do seu património natural como um bem a que todos têm direito.
    Independentemente do que muitas pessoas possam achar do ICNB, o instituto não é mau nem muitas das pessoas que lá trabalham, seja em Lisboa ou nas AP's. O modelo é que está completamente errado e sobretudo, quem o dirige está contra a missão do ICNB e não percebe que desta forma acaba-se o trabalho de décadas de bons profissionais, gente que deu boa parte da vida a trabalhar para conhecer o património natural do nosso país e que agora se sente envergonhada, humilhada e desolada com o que estão a fazer.
    Basta dizer quem nem um presidente a tempo inteiro existe no ICNB para perceber como está o tema da Conservação da Natureza a ser encarado pelos (I)responsáveis lideres daquela casa. Tenham dó. Enforquem-se e farão melhor figura.

    ResponderExcluir