Esta fotografia é uma metáfora visual. Simboliza o núcleo de Vida, entendendo-a como a Natureza, as Gentes e as suas Culturas, rodeados pela adversidade.

É um sinal e um clamor em memória dos povos da Peneda e do Gerês.



sábado, 8 de maio de 2010

Há que olhar as coisas também por dentro, Senhores...

Gerardo Pereiro, Antropólogo, pediu ao Biólogo que acabara de fazer uma comunicação sobre Arquitectura e Construções nas Áreas Protegidas, para ir além da parte estética da sua observação crítica sobre a reconstrução dentro das AP e olhar aquelas casas pelo lado de dentro! Olhar para as pessoas e para a estrutura familiar que a habita ou que dela tira utilidades e depois, sim, tentar compreender o fenómeno daquele “Feiismo”.
Esta ideia ajuda a sintetizar o que se passou no dia 30 de Abril, em Montalegre num seminário cujo tema era “Conflitos e Percepção do Ambiente em Áreas Protegidas”, organizado pelo Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento (CETRAD), da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Para este oportuno debate, Humberto Martins, Antropólogo, lançou o seguinte repto:
As AP são contextos de conflito, seja entre os indivíduos (e/ou os agregados) humanos que neles habitam e as instituições que os gerem, seja entre os mesmos indivíduos humanos e aqueles outros não humanos que neles (co)habitam.
(…)
Este projecto, porque situado numa linha de aplicabilidade/intervenção, define implicações práticas e políticas. E nestas incluímos: 1 – produção de conhecimento/textos que possam instruir políticas públicas relacionadas com o ordenamento e gestão do território nas AP, considerando a acepção mais alargada da palavra gestão (nas dimensões relacionadas com o estudo, conhecimento e acção sobre e perante todos os seus constituintes humanos e não humanos); 2 – criar/reactivar canais efectivos de diálogo entre indivíduos humanos residentes nas AP e os seus órgãos gestores.


Marcou ainda este seminário a ausência de representantes do PNPG e um discurso carregado de recados feito pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Montalegre. Com efeito, o autarca encarregou-se de substituir o Director do PNPG e lá foi dizendo que o plano deve ser aprovado urgentemente e que o Movimento veio perturbar os trabalhos de revisão, usando até como exemplo a questão das taxas e que elas hoje já não são problema para nós, populações locais. Foi pena que o Sr. Autarca não tivesse tido tempo para esperar pela resposta e ouvir um simples exemplo sobre as taxas – se a autarquia pretender instalar um sistema de saneamento básico numa aldeia dentro do PNPG terá de pagar uma taxa que pode ir até aos 5.000,00€ (Portaria nº 138-A/2010, de 4 de Março, Anexo, 1.10).
Surpreendentemente, da parte da tarde, ouvimos uma voz dissonante dentro da mesma autarquia, tecendo as críticas que é natural tecer à má gestão que o PNPG faz do território.


Tratou-se de uma importante iniciativa, porque permitiu discutir questões sobre a vida das populações locais dentro das áreas protegidas, numa lógica humanizada e fora dos preconceitos ambientalistas. Felizmente, já não são só os biólogos e os ambientalistas os interessados no estudo da nossa região, pois ela possui muita riqueza nas componentes histórica, cultural, etnográfica e até antrolopógica - as montanhas não são habitats dos ambientalistas, são-no das gentes que o afeiçoaram, ao longo de séculos, sábiamente. As nossas gentes, desde há muito tempo, suportam sacrifícios físicos em troca de algumas liberdades e prazeres concedidos pelas Montanhas, em busca do seu Bem-estar!
Da nossa parte, deixamos uma mensagem clara sobre o que é preciso fazer para garantir o Bem-estar Humano dentro do PNPG, numa lógica de sustentabildiade e de desenvolvimento, sendo vital:
- Eliminar o fantasma de território selvagem, porque ele está ocupado pelo Homem há muitos milhares de anos;
- Respeito pela propriedade privada e pelos baldios, porque o território tem esta estrutura de propriedade;
- Eliminar o excesso de regulação sobre as populações locais e isentá-las de taxas ou emolumentos nas suas actividades;
- Conquistar a confiança das populações locais, reforçando-lhes os sentimentos de segurança, de estima e de pertença;
- Reduzir os conflitos com as populações locais;
- Definir critérios objectivos para avaliar o Bem-estar Humano no PNPG;
- Definir os vectores do desenvolvimento das populações locais e estabelecer um plano de acção para uma geração;
- Garantir através do Orçamento de Estado os custos necessários ao bom funcionamento de todos os órgãos e serviços do PNPG.


No dia 14 de Maio, continua em Vila Real este ciclo de Seminários, podendo ver aqui o programa.
Bem hajam!

Um comentário:

  1. Brilhante a simplicidade do argumento.
    Não sou natural do PNPG mas é o meu local preferido e com ele já alimentei muitas conversas. Há muito que me irritam os que não percebem a necessidade de pensar nas pessoas que nos recebem. Vou usar este argumento muitas vezes. Na sua simplicidade congrega muitas das minhas ideias.

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